Já se vai mais de um mês
da greve dos trabalhadores técnico-administrativos das universidades,
mas, no geral, essa parece ser uma greve invisível, porque, na mídia,
quando os jornalistas falam em greve nas universidades, se referem no
mais das vezes aos professores. Isso, em verdade, não se configura
novidade, pois, desde sempre, a hierarquia nas universidades tende a
colocar o trabalho dos técnicos sempre em segundo plano, como se esse
contingente de pessoas atuasse apenas numa atividade meio, não fazendo
muita diferença no resultado do trabalho educativo.
Há um filme de produção
estadunidense que mostra explicitamente como é usual esta relação
complicada entre os técnicos e os professores. É o “Quase deuses”, que
conta a história da inusitada parceria entre um faxineiro da
Universidade Johns Hopkins e um médico professor/pesquisador, que busca
descobrir novas técnicas para a cirurgia do coração. O faxineiro Thomas,
um homem simples e negro, é exímio inventor de ferramentas que começa a
operar corações junto com o professor, conseguindo criar novas técnicas
cirúrgicas e ferramentas que fazem a pesquisa avançar e tornam o
professor famoso. Há uma cena paradigmática na qual o
fotógrafo/jornalista chama todos os dirigentes da universidade para
posar para a foto da matéria que anunciará as novidades científicas
descobertas ali. O pesquisador vai, todo vaidoso, e vê, ao longe, o
faxineiro, que na verdade é o real inventor da técnica. Ele se cala,
segue para a foto e não o chama, não anuncia a sua façanha, não o inclui
na vitória que, de fato, é do trabalhador.
Esta atitude do
professor não é isolada num mundo em que as relações de trabalho
impostas pelo sistema de produção de mercadorias, como é o capitalista,
são vistas de forma separada. Desde Immanuel Kant que o mundo moderno
inaugura a separação radical entre o que seja trabalho manual e trabalho
intelectual. E essa visão kantiana é a que domina na sociedade
capitalista, o que faz com que na divisão de trabalho do mundo
universitário apareça como absolutamente natural que um técnico seja
considerado inferior ao docente. No contexto ali desenhado, apenas o
docente estaria realmente vinculado à atividade fim proposta pela
universidade.
A relação trabalho manual x trabalho intelectual
Pois é justamente essa
verdade moderna que o economista Alfred Sohn Rethel procura desconstruir
ao apresentar uma teoria materialista do conhecimento em contraposição à
visão kantiana. Segundo ele, Marx já havia anunciado que na fase mais
elevada da sociedade comunista haveria de desaparecer a subordinação
servil dos indivíduos a divisão do trabalho e, com ela, a antítese entre
o trabalho intelectual e o trabalho manual. Esta antítese, insiste
Marx, existe em todas as sociedades baseadas na divisão de classes e na
exploração econômica, sendo, inclusive, um dos ingredientes do fenômeno
da alienação no qual se baseia a exploração. Daí não ser nenhuma
novidade que esta tensão se explicite na universidade, também um espaço
de poder, de divisão do trabalho e de exploração.
Mas, Sohn Rethel também
observa que na sociedade capitalista os considerados “trabalhadores
intelectuais” não são os máximos beneficiários do sistema e sim os
servos do domínio, logo, não deveriam vangloriar-se disso. Para o
pensador francês a superação do capitalismo é elemento fundamental para a
mudança destas relações, que pode libertar tantos uns como outros. Kant
dizia que a divisão entre mãos e mente é uma necessidade
transcendental, já Sohn Rethel afirma que ela é apenas fruto da
sociedade produtora de mercadoria. Assim, os antagonismos de classe que
engendra a produção de mercadorias na sociedade burguesa – e a produção
de conhecimento está entre elas – está intimamente ligada as formas de
divisão entre mente e mão.
Sohn Rethel discute o
tema do ponto de vista formal, assim como Kant, mas numa outra
perspectiva. Ele mostra como num ato cotidiano de compra e venda de uma
mercadoria existe um momento x em que tanto quem compra como quem vende
está envolvido em uma abstração (um ato intelectual). É o momento em que
se efetua o intercâmbio propriamente dito, este espaço de tempo em que
alguém busca algo para seu uso e outro estabelece um valor de troca,
fazendo-se assim a transação. Assim, a abstração não é uma coisa
exclusiva da mente – como queria Kant – mas aparece no dia a dia da vida
real, tem origem nos atos concretos. Sohn Rethel insiste que assim como
os conceitos de ciência natural são abstrações-pensamentos, o conceito
econômico do valor é uma abstração real. É certo que ele existe só no
pensamento, mas não brota dele. Sua natureza é social. Não são os homens
que produzem estas abstrações e sim as suas ações, o que fecha com o
conceito de que é o ser social que determina a consciência.
Assim, se para Kant
estava certo que existia uma separação radical entre mente e mão, e
Hegel conferia ao Espírito a primazia e o domínio sobre o manual, Marx
desorganiza tudo isso relacionando com o tempo, compreendendo que isso
muda na história. Logo, não há como determinar antecipadamente as formas
do manual e do intelectual. Por isso que a sociedade sem classes
proposta por Marx só pode existir se houver uma unidade concreta entre o
trabalho manual e o intelectual, sem a primazia de um sobre o outro,
que é o que, em última instância provoca toda essa lógica de dominação
tão bem engendrada dentro da universidade, assim como em qualquer outro
setor do mundo capitalista.
Assim, aceitando-se as
teses de Sohn Rethel e de Karl Marx, todo esse processo de dominação,
servidão, opressão e inferiorização do outro que é o caldo cultural
vivido na universidade só poderá ser superado quando os trabalhadores
compreenderem a ideologia que está embutida na divisão do trabalho e a
superarem. Para isso, os técnicos-adminsitrativos, que hoje são os que
estão submetidos a essa opressão, devem enfrentar o debate intelectual
com mais preparo, compreendendo que para mudar esse estado de coisas há
que mudar também a forma de organizar a vida. Não só na universidade,
mas na sociedade. Isso é um pouco o que se faz na greve, mas, no
cotidiano da vida, quando tudo volta ao normal, isso volta a se perder.
A luta de sempre
O certo é que tanto os
técnicos – desde aquele que abre a porta para o aluno entrar até o
pós-doutor que dirige pesquisa – como os professores constroem o saber
dentro da universidade. Muitas vezes, não tanto como deveria, mas o
fazem juntos, seja nos erros como nos acertos. Daí que falar em greve na
universidade é perceber essas duas pernas da estrutura.
O governo federal, da
forma como age em relação aos movimentos, só faz fortalecer a ideia de
divisão e inferioridade. Apesar de manter uma atitude dura na negociação
com os trabalhadores, tem recebido os professores e até já apresentou
uma proposta – ruim, é verdade. Mas, para os técnicos, o que há é o
silêncio. Para manter a aura de “companheiros” alguns dirigentes chamam a
Fasubra (Federação dos Sindicatos das Universidades Brasileiras) para
conversar. Mas é só conversa mesmo. Nada de negociação. Quem manda é o
Planejamento e a ministra já falou no bom som do colonialismo mental:
“Não podemos ir à contramão da Europa que hoje está cortando salários”.
Ou seja, completamente perdida da realidade mundial, ela apenas quer
copiar a Europa, sem se importar se a conjuntura de lá é muito diferente
daqui. Nos países centrais a crise está rugindo. Aqui ela ainda não
chegou com força. O Brasil está em ascendência econômica, crescendo cada
dia mais. Dinheiro não é coisa que falta. No orçamento brasileiro,
segundo dados do próprio governo, 54,9% está sendo direcionado para
pagamento e amortização da dívida pública, enquanto que para o pagamento
de trabalhadores públicos são utilizados parcos 9,85%. Ora, os números
são luminosos. Toda a prioridade para banqueiros. Ao povo, as batatas.
Na última semana os
trabalhadores públicos foram à Brasília e fizeram um acampamento. Muita
mobilização, barulho e incomodação para o governo. Até o Ministério do
Planejamento foi ocupado, causando tensão. Mas, ainda não foi o
suficiente para fazer cócegas na ministra europeizada. Talvez ela esteja
esperando para ver quais as próximas ações da primeira ministra de
ferro da Alemanha, para então decidir como copiá-la.
Enquanto isso, o
semestre letivo que deveria iniciar agora no fim de julho já começa a
ter problemas. Não há como fazer matrícula, tudo está parado. Esta tem
sido uma mobilização muito significativa de professores e técnicos. Mas,
ao que parece o governo federal está se lixando para a educação dos
jovens brasileiros. Qualidade, criação intelectual, pensamento crítico, é
coisa que só atrapalha governos tíbios, daí que quanto menos gente
capaz de pensar, melhor. Não é sem razão que as greves nas universidades
se arrastam por meses. Não é como uma greve nos transportes que em dois
ou três dias se resolve. A educação não é produtiva.
O governo é pródigo em
divulgar números utilizados para pagamento de trabalhadores, falam em
alguns bilhões (de 6 a 9) e mostram tabelas que aos olhos das gentes que
assistem à televisão soam como absurdas. “Dinheiro demais para os
servidores públicos”. Mas a mesma mídia e o mesmo governo não mostram os
números e as tabelas dos valores que enviam para os bancos, mais de 500
bilhões todo o ano.
E assim vão os
trabalhadores na árdua luta contra o capital. Pois o patrão estatal é
apenas formal. O embate que se trava numa greve da educação, é o velho
embate contra o capital, pois é com ele que se disputam as verbas.
Enquanto o governo continuar optando por servir ao “diabo” (a dívida), o
atendimento ao povo através dos serviços públicos continuará ruim e
isso não pode ser imputado a uma massa de trabalhadores que desde os
terríveis anos de FHC vem amargando arrocho salarial e falta de
perspectivas na carreira. Cada vez mais os governos, desde FHC, Lula e
agora Dilma, vêm atuando na lógica de definir algumas carreiras
estratégicas no serviço público e essas não tem a ver com educação,
saúde, previdência ou outras que digam respeito imediato à população.
Não. As carreiras estratégicas são as do judiciário e da receita
federal, espaços estratégicos de recolhimento de dinheiro e de respaldo
jurídico.
E é por causa disso que a luta deve continuar!
FONTE: http://eteia.blogspot.com.br/2012/07/a-greve-nas-universidades-vai-continuar.html